(texto grande <=> hora pequena)
Depois do Natal, a ansiedade instalou-se. Cada dia que passava era uma vitória, um dia a menos para a hora D.
Tinha 3 objectivos – 1º passar o Natal, 2º passar o Ano, 3º chegar ao dia de Reis grávida (não me perguntem porquê, mas sempre disse que queria viver esta gravidez até ao limite!).
O Natal passou-se em familia, como manda a tradição e como manda a tradição, cá em casa – na nossa casa, com a canseira que tudo isso implica.
No trabalho, as coisas complicavam-se – fecho do ano e outras complicações à mistura. Trabalhei os últimos dias do ano a 150%.
No dia 31 todos se vieram despedir de mim a desejar umas boas entradas e acima de tudo “uma hora bem curta”. Eu sempre respondia – “não pode ser bem curta senão não dá tempo de chegar à maternidade!!!” (no fundo, no fundo esse sempre foi o meu verdadeiro receio!).
Achei que ainda voltaria à empresa no dia 5 de Janeiro (segunda feira) – ainda precisava de fazer umas coisas para o “fecho das contas” – os meus colegas chamavam-me de maluca.
Passei o ano em casa com amigos, uma festa calma, que para mim já era uma canseira – passavam poucos minutos da meia noite e já eu arroxava na cama dos meus amigos – as forças já cá não moravam.
No dia 2 de Janeiro trabalhei em casa – deitei-me às 5 da manhã para conseguir terminar tudo o que queria.
Dia 3 de Janeiro – Sábado – festa de aniversário do meu amigo J. Daquelas festas onde vemos amigos que não vemos à um ano (desde o último aniversário do J.). A pergunta era sempre a mesma – “Então, quando nasce a C.”. A resposta também era sempre a mesma – “Está quase – 4ª feira é provocado (dia 7), se não for antes” – mas na 2ª ainda tenho que ir ao trabalho fazer umas coisas” – maluca a miúda, de todo!
Comi desalmadamente salada de frutas, corri atràs das crianças que só faziam disparates e ainda tive que me chatear à séria com o T. Saí da festa às 2 da manhã numa canseira só...
Cheguei a casa e estatelei-me na cama, podre de cansaço e só pensava em dormir a manhã toda na cama – “até ao meio-dia”, pensei eu.
Levantei-me de madrugada – “eu bem disse que não devia ter comido tanta salada de fruta” – com umas cólicas horríveis.
E agora sim começa o relato da hora curta:
7.30 – mando uma mensagem a uma amiga a queixar-me das cólicas – “eu bem que não devia ter comido tanta salada de fruta, mas contracções nem vê-las”
7.45 – bem, se calhar não são só cólicas, isto parece-me mais qualquer coisa – parece-me!
8.00 – pelo sim pelo não, vou fechar as malas e tomar banho. “Isto devem ser contracções” – começo a contar o tempo entre elas.
8.20 – saio do banho e digo ao P. que estou a ficar aflita. Resposta pronta “Tem calma e deita-te um bocadinho que isso passa”
“Isso passa?”- quem se passa sou eu, não tarda nada!!!!
8.30 – Ligo à médica – contracções de 8 em 8 minutos – “então está na hora” – diz ela –“ venha com calma mas depressa”.
Entro em pânico – está mesmo na hora – começo a achar que não vou ter tempo para chegar ao hospital. Grito para o P. se despachar e desespero quando o vejo entrar no chuveiro – numa altura como estas esquece o banho!!!! Mas ele e a sua calma fazem tudo como um dia normal – sair de casa sem banho tomado – é que nem pensar.
8.50 – Começo a descer para o carro e as contracções estão de 5 em 5 minutos – “não vai dar tempo, não vai dar tempo” – ainda temos 15 km pela frente...
9.00 – Chagam os meus sogros para ficar em casa com o T. que dorme profundamente e o P. põe prego a fundo no acelarador. Estou aflita, muito aflita (sorte a minha ser Domingo e não haver quase nenhum carro na estrada àquela hora).
9.25 – Chegamos à CVP. Eu grito de desespero a dizer a toda a gente que a minha filha está a nascer. Grito pela epidural, grito com dores, mas na verdade não as enfermeiras não me levam muito a sério, muito menos o P. que acha que eu estou a exagerar. – “Carma minina, carma” – diz-me uma enfermeira negra com o ar mais pacífico deste mundo.
“Calma?!?!?!” – mas ainda ninguém percebeu que a minha filha está a nascer?
Levam-me para o bloco de partos e fazem-me o toque. Nesse momento todas as dúvidas se dissipam. “Depressa, preparem tudo – ela já tem a dilatação toda feita e a criança está mesmo aqui” – diz a enfermeira.
As águas rebentam e eu entro em pânico – “e a médica, a minha médica???” – “e a epidural? Eu quero a epidural!!!”. “Mas qual epidural menina? Já não há tempo para isso e a sua médica pode não chegar a tempo – tenha calma que se não chegar nós fazemos o parto – esteja calma e concentre-se”.
Mas calma era tudo o que eu não tinha. Até podia passar sem epdural, mas a médica, a minha médica, eu precisava dela!
9.35 – Entra a médica no bloco – fica admirada com o estado avançado da coisa.... eu respiro de alívio. Ela dá-me 2 ou 3 indicações e manda-me fazer força.
Faço força, muita força.....
9.39 – “Pode parar – pode parar de fazer força” – diz a médica – “ela já nasceu!!!!”
A minha princesa nasceu.... tão depressa, tão naturalmente, tão linda...